segunda-feira, 28 de junho de 2010

O pós-eu-mundo (12° Encontro - Trajetórias do Ser)

Neste encontro eu tive função específica, fui o comentador. A apresentação foi do Leandro Haik. Então, como preferi fazer uma apresentação das conexões que estabeleci no contato com a fala da Maria Lúcia Pupo, O Pós-Dramático e a Pedagogia Teatral, coloco aqui o que apresentei lá:

 
COMENTÁRIOS

Antes de entrar no tema é preciso conectar um pouco com o conceito de teatro pós-dramático.
Pincei alguns trechos do Benedito Nunes ao tratar do tempo na narrativa, porque acredito que o Lehmann, conceituador do teatro pós-dramático, vai num raciocínio semelhante quando desconsidera o teatro épico como ruptura. E porque entendo que o tempo é uma particula pouco necessária no pós-dramático.
 
"O épico e o dramático se aproximam do ponto de vista do tempo, por que ambos, dentro da diferença modal que os distingue, nos colocam sempre diante de eventos, relativamente aos quais, como agentes ou pacientes, os personagens da obra se situam. Esse teor objetivo, que lhes é comum, separa-os da lírica, inconcebível sem a tonalidade afetiva, que incorpora as vivências de um Eu ; e sem o ritmo, que incorpora as vivências ao livre jogo das significações, graças ao qual se opera o retorno reflexivo da linguagem sobre si mesma."
(Benedito Nunes, O Tempo na Narrativa)
 
"No dramático e no épico, o tempo vem normalmente associado à “fluidez da corrente da ação” , sendo portanto, inseparável dos acontecimentos que o preenchem."
(Idem)
 

O Teatro pós-dramático
"Dramático, para Lehmann, é todo teatro baseado num texto com fábula, em que a cena teatral serve de suporte a um mundo ficcional.... Com esse conceito de drama que reúne Eurípedes, Molière, Ibsen e Brecht, o teatro épico não poderia ser considerado um salto, porque nele os deslocamentos da dinâmica interpessoal – por meio de coros, apartes, narrativas, etc. – não chegariam a subverter a vivência ficcional."
(Sérgio de Carvalho, Apresentação do livro “Teatro pós-dramático” de Hans-Thies Lehmann)
  
"O teatro pós- dramático é essencialmente (mas não exclussivamente) ligado ao campo teatral experimental e disposto a correr riscos artísticos. (...) Na ênfase em formas teatrais experimentais não está implicando um juízo de qualidade: trata-se da análise de uma idéia de teatro diferenciado, não da apreciação de empreendimentos artísticos individuais. (...)Trata-se aqui de um teatro especialmente arriscado, porque rompe as com muitas convenções. Os textos não correspondem as espectativas com quais as pessoas costumam encarar textos dramáticos. Muitas vezes é difícil até mesmo descobrir um sentido, um significado coerente da representação. As imagens não são ilustrações de uma fábula. Esse trabalho teatral é essencialmente experimental, persistindo na busca de novas combinações ou junções de modos de trabalho, instituições, lugares, estruturas e pessoas."
(Teatro Pós-Dramático, Hans-Thies Lehmann)
 
 
Aí eu ousadamente faço uma tentativa de tornar didática a apresentação de algumas características do teatro pós-dramático, sem no entanto acreditar que elas caracterizem uma obra como tal, mas dão pistas de um possível enquadramento.
Divido assim: 

A narrativa 
  • O Pós-dramático transgride os gêneros.
  • Perspectivas para além do drama.
  • A medição do sentido não é prioritária.
  • Não há fábula ou é relegada a um 2º plano.
  • Nega-se a mimese.
 
A encenação
 
  • O acontecimento cênico é pura presentificação do teatro
  • A recusa da síntese
  • Abundância simultânea de signos (espelho da confusão da experiência real cotidiana), cuja fratura pode se alargar até a ausência total de relação entre eles. 
  • Evidencia o não acabamento da percepção 
  • Teatro afirmado mais enquanto processo do que como resultado acabado. 
  • O caráter fragmentado é tornado consciente
 
O ator
 
  • Recusa a personificação. 
  • Não conta através de gestos tal ou tal emoção, mas se manifesta por sua presença, que se inscreve na história coletiva. 
  • Como um performer, se manifesta em seu próprio nome, encena seu próprio eu.
 
A platéia
 
  • Uma transformação da percepção da platéia é convocada. O desconforto da cena pós-dramática, muitas vezes aparente no espectador, acarreta potencial para emergir interrogações. 
  • O espectador vê a irrupção do real no jogo e seu estado estável de espectador questionado “enquanto comportamento social inocente e não problemático” . Uma mudança de atitude radical é solicitada. Ele tem que tecer relações, criar elos, assim, alargar percepções.
  
Conexão com a cena (da minha função específica de comentador)
 
Talvez o espetáculo (que eu tenha visto) que mais chegue perto a uma estrutura pós-dramática seja o “Sombra a L’ombre”, Nando Lima, 1995. (Houve um espetáculo semelhante em 2002, também do Nando, o “Leve Barato”)
 Gera uma compreensão para além do drama. Não há fábula. Muitos elementos compõem a encenação e não há uma narrativa conjunta – quando narram, o fazem concomitantemente, sem uma conexão lógica e/ou cronológica. Há uma abundância de signos, sem hierarquização de imagens ou de qualquer elemento. Mesmo o ator, muito presente, é apenas sombra.
 
O que ocorre é um compartilhamento da experiência cênica com o expectador, que sai sem respostas ás muitas conexões subjetivas a que é submetido (se estiver disposto), sai com sensações comparativas das suas próprias experiências. O processo do ato, a produção da ação, é o que é visto. A platéia é levada, é solicitada, a uma nova percepção do fazer teatro.
Porém, não tenho certeza da categorização no pós-dramático, talvez boa parte da obra do Nando Lima esteja nesse gênero. Poderia citar algumas obras do grupo Cena Aberta, dirigido por Luiz Otávio Barata, pela ruptura com a fábula, o trabalho com não atores, relação profunda com a platéia, mas que também não teria certeza.
  
Sobre o Texto de Maria Lúcia Pupo
 
Ela levanta alguns questionamentos sobre a maneira como elabora uma pedagogia para o teatro pós-dramático:

  • Haveria procedimentos específicos que chegassem a configurar a pedagogia para uma cena pós-dramática?
  •  Ao professor (educador (?) teatral, pedagogo teatral (?)) é solicitado a capacidade de leitura da cena pós-dramática, para a disponibilidade de uma nova percepção. Condição indispensável, essa de percepção ampliada, ao coordenador de processos de aprendizagem teatral.
 Aí está o primeiro aspecto da confluência Pós-dramático/pedagogia teatral, que é no que o espectador desse teatro precisa ter como ferramenta, a ampliação da percepção. Talvez seja nisso que a pedagogia teatral precise se basear para tratar do pós-dramático
 
  • Caberia, então, recortar, dentro das reflexões sistematizadas sobre a aprendizagem artística, uma pedagogia, ou mesmo uma didática específica que viesse a dar conta do fenômeno pós-dramático?
Não creio. Não há fórmula, há processo.
O processo de construção do Eu-Mundo pode ter sido uma aplicação do Teatro pós-dramático à pedagogia teatral. Ou uma maneira didática de fazer compreender o pós-dramático num processo pedagógico, desde a primeira solicitação da Wlad de nos mantermos atentos, numa escuta de todos os sentidos, sendo ao mesmo tempo aluno-participante, disposto a se fazer presente na aula como no jogo, disposto a lançar-se ao experimento-aula, e, ao mesmo tempo, observador crítico de si, do outro (aluno, jogador, professora, expositor), do todo.
Adiante, de posse de informações aparentemente isoladas, prescritas nos textos apresentados nos seminários, com devida conexão com a produção cênica local e debate aberto para toda e qualquer conexão relacionada, o conteúdo abrange aspectos diversos do conhecimento da abordagem teatral, da leitura às múltiplas concepções artística, da percepção do espectador à criação do personagem. Tudo isso, subjetivamente inserido nos exercícios do eu-mundo. Tudo posto de maneira a cruzarem-se as experiências sensoriais da formação do conhecimento corporal, necessariamente entremeados de elaborações psíquicas, de cada um que atua (nós, alunos) com o desafio proposto de sua transmissão em formato teatral, sem a obrigação da fabulação, resultados ao disparo da encenação no sábado, 19.
 
Então, entendo que o “Eu-Mundo”, a apresentação, está relacionado à estrutura pós-dramática empregada no ato das performances ocorrendo concomitantes. Ainda que eventualmente, um ou outro, tenha colocado uma cronologia, um enredo, uma fábula, na sua encenação, ao passo que se realizam ao mesmo tempo, configuraram uma narrativa sem encadeamento, a não ser o proposto pela subjetividade de quem assistiu. O espectador foi colocado num espaço teatral rompido, cujas linhas fronteiriças estvam estabelecidas em desacordo e cada novo código posto em cena poderia desfazer o anterior. Apenas ele, convocado a dispor das suas próprias experiências, foi senhor de uma lógica - ou foi levado pelos estímulos das encenações (sons, luz, textos, imagens), associando-as a partir deles, ou a construiu aleatoriamente, por qualquer outro critério – cujas correspondências foram atribuídas pela necessidade de uma organização sensorial.
 
 Para acabar, cito a Pupo, que na verdade, pelo que entendi, traduz o que eu disse acima: 
"... aquilo que muitas vezes é vivido como simples exercício ou imprecisa experimentação traz em si o germe de modalidades estéticas, qualificáveis como manifestações de um teatro pós-dramático."
(Maria Lúcia de Souza Barros Pupo; O pós-dramático e a pedagogia teatral. p.227.)
 
ps.: as imagens são dos espetáculos citados. Tem mais no espacelive do Nando. É só linkar (verbo novo)!

Comunicação com o invisível eu-mundo (12° Encontro - Trajetórias do Ser)

Depois de discutirmos tanta tecnologia ligada as novas formas do fazer teatral, ou de como as tecnologias vão se inserido ao teatro e de como o teatro vai se apropriando delas; depois de tratarmos do ator atento à contemporaneidade, aos multiplos estímulos da era mundializada e da virtualidade; depois de vermos quantos o ator pode ser, ou quantas possibilidades de atuação ele pode lançar mão; depois disso e de ver o quanto nós realmente estamos diante de um esmero oculto à compreensão dos nossos sentidos, ficamos diante de tratar da "Canalização". Assunto que nos remete ao espiritualismo, ao movimento da "Nova Era" e também à canalices e charlatanismos. Mas não é disso que trataremos aqui.
Aqui eu falo de conexões e de disponibilidade. Acredito demais nas dimensões que correm paralelas a esta que estamos inseridos. Planos e sobre-planos e sub-planos, órbitas de energias que passam por nós, nos tocam e nos atravessam, por vezes, agem através de nós e nós através delas. Energias, sutilezas, dados, o que for, algo nos conecta, não apenas um com o outro, mas com objetos, outros seres vivos, antepassados. Mas nem sempre estamos atentos, nem sempre estamos disponíveis e a grande maioria das pessoas nem acredita nisso, portanto, nem sempre estamos abertos a isso. Mas somos canal para isso, quer dizer, podemos ser. Podemos ser um meio, um médium, uma mídia, depende de como tratamos o assunto.

Poderia falar disso ocorrendo em momentos cotidianos, em casa, na aula, na rua, mas não é o caso aqui. Aqui tratamos do fazer teatral. Nas salas de ensaio, somos arrebatados por manifestações novas a cada momento de entrega ao processo de criação. Quanto maior a intrega, tanto será o arrebatamento. No Palco não é diferente quando o aquecimento foi eficiente e o jogo está ativado.  Da atenção, que podemos chamar de "escuta do todo", a recepção dessa comunicação invisível é parte, sim, crença, mas talvez funcione apenas como instrumental do ator com presença cênica, disposto ao jogo e com a atenção distribuída. Talvez vire técnica e a comunicação ocorra.
A utuilização consciente é que torna o ator um canal. No dia a dia, talvez a consciencia não seja necessária e talvez nem no ensaio, para o ator. No palco, torna a atuação mais pulsante, puxa a platéia pra dentro, unifica a obra.
Uma amiga, Veronica Gerchman, da Cia Truks, quando é arrebatada por uma ação inesperada do boneco que ela manipula com mais duas pessoas, diz: "Passou um anjo!"
Não descarto, claro, a hipótese de ser maluco, seria ingenuidade se o fizesse, e se não fosse, não brigava diariamente pela sobrevivência fazendo teatro.

Walace apresentou o tema e a Deliane Lima comentou. Pareciam nervosos, mas foram eficientes o suficiente pra instigar o debate que se seguiu.

O dever a seguir foi apresentar o roteiro-objeto para quem não tinha feito ainda e, para quem quisesse, começar a trabalhar a sua encenação do Eu-mundo. Eu não tinha apresentado ainda e o que levei não estava completo. Não tenho imagens do que fiz. Nesse momento o meu roteiro-objeto já está completo, mas está com a Wlad. Porém o roteiro escrito, que baseou o objeto já está postado aqui, na página Eu-mundo.

Ator "reconstituído" (11° Encontro - Trajetórias do Ser)

O ator, não é ele aquele que diz ser outro? que tem máscaras, maquiagens, muitas indumentárias para não ser ele mesmo? Será ele, então, sempre, ainda que pareça outros? Não diz palavras com verdades e nuances, cores e profundidades, que não são suas? Mesmo que seja ele mesmo e vista as suas roupas e diga palavras suas, não será tudo mentira? tudo o que parece sentir ali não é reinvento das minucias do tal sentimento? Então, esse não é ator, o outro é? O que faz, o que finge, o que não faz e nem finge?
Não consigo entender qual deles, atores, está errado. Qual não serve mais a esse tempo, se estamos diante de uma discussão em torno de uma nova dramaturgia, que não foge à certeza da diversidade de falas nessa contemporaneidade? Entendo que sem ele não há teatro. Com ele constrói-se a obra teatral e é ele o responsável pelo levantamento da obra ao vivo. A obra pode determinar que tipo lhe serve, qual maneira será usada naquela elaboração.

Máira Tupinambá mostrou o tema proposto no texto (Da Interpretação, do livro O Teatro, Em Suma, de Fersen) e o Ícaro Gaia comentou colocando momentos da sua própria trajetóri. Já disse antes, gosto disso.
Na sequência, "brincamos" de feira. Todos expuseram seus roteiros-objeto ao mesmo tempo, para que todos vissem ao mesmo tempo, num passeio pela sala, acho que para termos uma noção do movimento que será na apresentação.

Foi muito dificil pensar o roteiro para o eu-mundo em forma de objeto. Parece que tenho uma dificuldade com a plástica, com a transformação de uma idéia em um objeto. Talvez toda a discussão que tiuvemos em torno do que é arte pode ter contribuido. Enfim, não levei o roteiro-objeto. Quase todos levaram. Levei idéias de cenas, do que eu quero destacar dentro dessa trajetória, que virou meu eu-mundo. Sei que quero a fala da Lucia Santaella, "em constante pesquisa de soluções provisárias", quero o copo de café que tomo toda noite em sala de aula e que a Wlad, na primeira aula, me solicitou cuidado, quero o holocausto, pelo viés da anestesia dos sentidos, polêmico na exposição do Laion, quero o meu desequilíbrio no taxi quando criança, quero a fala da Adhara de que "queria ter dito de verdade isso pro meu pai", quero um texto do blog da Deliane que reinventa a percepção de objetos, quero cantar um tema de amor, pode ser "Paradeiro" do Arnaldo ou algo do Tom Jobim ou do Chico Cézar que não lembro o nome.

A exibição da pele do teatro (10º Encontro - Trajetórias do Ser)

O 10º encontro desta trajetória aconteceu. Achei que pularíamos um dos textos propostos ou juntaríamos dois, pois o encontro anterior foi a abertura do Seminário de Dramaturgia, já postado aqui, logo em baixo deste.

Tratemos da pele política que reveste o teatro. Digo pele porque ele nem sempre está nu e sua pele nem sempre é vista, mas sempre está (esteve e estará) lá. Aparente ou descarado, ou não, consciente, ou não, para quem faz e assiste, é isso que o teatro sempre será: um ato político. Mesmo que não seja engajado, panfletário, que o tema não tenha nada de cunho econômico-social, mesmo que não tenha drama.
Político por ser uma convocação pública, um chamado a todos que estejam dispostos a ir, ou que podem ir. Sim, porque ainda assim, a maioria das convocações é para quem pode pagar. Daí, o teatro de rua estar bem mais desnudo, ao menos com essa parte da pele mais exposta, a parte que permite que todos e qualquer, com vontade, parem pra ver.


Mas há sempre a necessidade da troca, da participação de quem lá estiver presente. Nesse sentido, se todos participam, mesmo que uns falem mais que outros, apareçam mais que outros, o que ocorre é uma reunião, uma assembléia pública, disponibilizada e selecionada pelo assunto. Nesta, todos se veem, se cumprimentam, compartilham o assunto, acatam ou não a opnião posta, discutem e comentam no final. Um chamado ao encontro com outros para tratar determinado enredo. Desta forma, o que ocorre é um saber-se coletivo, um partilhar daquele interesse comum.
Quem será realmente visto nesta assembléia será o elenco, os eleitos, que dominarão o discurso e o desenrolar do tema, pessoas preparadas para cumprir aquela tarefa com gestos, falas, posturas e movimentos adequados e pré-organizados. Naquele momento, representantes de que assiste ante ao enredo que se desenrola.

Posso pensar que a ausência de público a que o teatro foi submetido por determinado tempo seja um desdobramento de uma descrença na política, nos políticos, nas assembléias e câmaras dos representantes políticos. E que em um novo procedimento/posicionamento social, que parece acordar diante da face mascarada da democracia representativa, onde o desejo seja, na verdade, a participação, onde não mais satisfaça se ver representado e sim agente, sujeito de seu ato, o teatro esteja, atualmente, espelhando esse momento, ao menos por aqui. A imersão de territórios de teatro, afirmada no aparecimento de espaços particulares, linguagens específicas, para tal ou tal público, em quantidades menores (não mais grandes teatros, para centenas de pessoas), parece ser a vontade de cada vez mais o público se ver, se sentir participante de uma discussão coletiva.

Bem, a Kátia apresentou bem do jeito dela, com um olhar bastante específico sobre o tema (texto proposto: A exibição das palavras - uma idéia (política) do teatro, de Denis Guénoum). Achei mais interessante expor a própria visão do texto que tentar demonstrar domínio sobre. A Carol Domingues comentou e foi bem direta, colocando exemplos da sua própria trajetória, o que também achei legal, já que tratamos, aqui, de trajetórias.
Seguiu-se o debate, com os mesmos (grilos) falantes de sempre, variando uma ou outra pessoa. Questiono se é falta de leitura do texto proposto (pode ser, pois não gera conexões), ou falta de compreensão do texto (o que não isentaria a participação, pois mesmo o não entendimento gera questões e opniões), ou falta-lhes vivência (pode ser também, mas o debate é um espaço de experienciação, logo a inexperiência pode também ser um instigante), ou será timidez (mas é preciso, então, compreender o espaço que estamos estabelecendo de uma convivência de, pelo menos, 4 anos. E que - sonho romântico - nos formamos também com o conhecimento e experiências dos colegas de turma, não apenas dos professores)?

A Wlad expôs os ajustes no calendário dos nossos futuros encontros (o Seminário de Dramaturgia não estava previsto no nosso caminho) e marcou para um sábado (19/06) a apresentação da elaboração individual do Eu-mundo - resultado cênico de agregamentos sensoriais e intelectuais desta trajetória. Determinou bases para a criação cênica: Um espaço circular, cujo diâmetro teará o tamanho de braços abertos, que poderá ser delimitado por um circulo no chão, paredes, teto, um desses. Cada um deverá mostrar o sua "dança cotidiana" (percurso elaborado num dos trabalhos em sala de aula), poderá usar um objeto luminoso, ou um sonoro, e até três adereços. O figurino será, no mínimo, a roupa que mais gosta (proposta de outro exercício de sala). Solicitou para o próximo encontro um roteiro-objeto, que baseará a criação cênica. Uma obra plástica, composta de partes que representam as cenas que serão desenvolvidas.

Seguimos para o exercício. Eu, que não me fazia presente há uns 3 encontros, motivos colocados nas postagens anteriores, fui convidado a começar algo que a maioria já havia feito: A cadeira vazia. Aquela conversa com alguém que não está presente ali, mas que "está" ali. Foi difícil fugir da cena e fazer uma conversa mesmo, sentí-la, sentir a pessoa presente. Fui e misturei, sem querer, ao conversar com meu irmão, as figuras masculinas da minha família com mais significado para mim: ele mesmo (o meu irmão), meu pai e meu avô paterno. Um papo sereno, coberto de sensações profundas e líricas.
Outros foram depois, mas me tocou profundamente a Adhara conversando com o seu pai. Muitos motivos me fizeram ser tocado por isso, o mais forte é que sou pai de filhas.

domingo, 27 de junho de 2010

O drama, o épico e o pós-dramático (Seminário de Dramaturgia Amazônida)

Neste dia, que seria o 10º Encontro do Trajetórias do Ser, dia 24 de maio de 2010, aconteceu a palestra com Sérgio de Carvalho, paulista da Cia. do Latão, na noite de abertura do Primeiro Seminário de Dramaturgia Amazônida, com tema proposto por ele mesmo: "Aspectos da forma dramática, épica e pós-dramática no teatro atual".
O Sergio fez um apanhado desde o teatro clássico até os dias atuais, com parâmetros principalmente paulistanos. Citou o momento quando a dramaturgia passou a ser importante e de quando o texto foi o centro e o início de tudo nas obras teatrais. Claro, falou de Brecht e do teatro épico, mas não só de Brecht. Sigo, fazendo pinçadas de tudo que ouvi.

Falou do movimento de teatro se fortalecendo nos ultimos anos, em São Paulo, e de como o épico de Brecht voltou a ser lido no movimento de teatro de grupo daquela cidade e do debate em torno disso. Porém na universuidade isso não aconteceu. Na USP, a voga estava no teatro europeu pós-dramático.
O teatro que recusa o drama e não tem personagens. Algo monológico, fragmentário, sem sentido, um possível espelho da dificuldade de comunicação e da velocidade de informações das grandes cidades na contemporaneidade. Mas que não é isso apenas que o caracteriza. Não há uma fórmula, um modelo.
O que via entre os que buscavam o pós-dramático na universidade, em suas produções, é que o medo do drama pode gerar um drama pior que o drama. Mas via também que nos grupos havia um problema com o drama.
Fez então, uma pequena diferenciação entre o clássico, o épico e o pós-dramático.
O que é o drama no teatro? Um tipo de texto, que aparece na história do teatro, concentrado no diálogo entre sujeitos (interpessoal, intersubjetivo), como não havia no clássico (tragédia e comédia). Aparece no renascimento (sec. XVII), com as noções de sujeito, vontade, livre arbítrio (no clássico o que aparece são deveres, não vontades). A tragédia não busca culpados e sim, conflitos de justiças. Personagens envolvidos em erros maiores. No drama os erros são individuais. Esfera pública (clássico) diferente da esfera pessoal (dramático).
O termo "Drama" aparece no sec. XVIII. Diderot usa-o colocando entre a comédia e a tragédia. O drama tira Coro, Canção, etc, tudo que possa interromper o sujeito. Sai do mito para o caráter do personagem, caracteriza o personagem. Na indústria cultural, solicita um modelo, um esquema, só muda o fundo.
O teatro passa por uma desconfiança do drama, o épico, no fim do sec. XIX. Como representar o extra-subjetivo ou intra-subjetivo (a economia, alienação, por exemplo)? Crise do drama no materialismo, surge o teatro moderno, uma tentativa de fazer o palco narrar, usando recursos narrativos de outros tipos, suspende o tempo dramático, esse é o épico.
Na critica de Brecht à ideologia do drama, o épico não recusa o drama, historicisa, revira, mostra a vida como ela não deveria ser. Cria uma expectativa psicológica, dramática e frustrada, e não a resolve. O público leva a expectativa pra casa. Não responde, deixa questões que saem com o público.
A crítica ao teatro épico e dramático é o pós-dramático. Recusa o texto. A cena é autônoma. Rompe com o que o drama e o épico tem em comum: o impulso mimético. Não representa mais o mundo ficcional. Recusa a fábula. A cena livre vai conter a mensagem. O ato performativo é o ativador do público. Tudo pode ser incorporado, porém isso não garante o pós-dramático. A quebra pela quebra pode não ser pós-dramático. Sabe-se o que não é, mas não exatamente o que pode ser.

Importante dizer que o Sérgio apresenta a edição brasileiro do livro que conceitua o teatro pós-dramático, do alemão Hans-Thies Lehmann. Interessante ouvi-lo e já tentar fazer uma ponte com a produção local para o seminário que irei comentar, o último da série dessa Trajetória, com texto da Maria Lúcia de Souza Barros Pupo, o Pós-dramático e a Pedagogia Teatral. Alcanço, no meu parco raciocínio ainda sobre o tema, possibilidades de pós-dramático na cena paraense (belenense). Lembro do Sombra a Lombre, do Nando Lima, lé por volta de 1996. Será?. Será que o Brasileiramente Árabes é?....
bem....fica o elefante na orelha.

ps.: A foto é do espetáculo Leve Barato, de Nando Lima.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Obra de arte é ponto de vista e sensibilidade (9º Encontro - Trajetórias do Ser)

O artista atual dialoga com as tecnologias, tem blogs, sites, fotologs, spaces, comunidades virtuais. Alguns são virtuais. Alguns só são artistas na virtualidade, como avateres do Second Life, nos Facebooks e Flickrs. Alguns fogem da vida real de artistas e vão ser fazendeiros no Orkt. Há quem muda de atividade artística e vai cantar no Youtube. Há quem negue tudo que a tecnologia possa ser, servir ou representar.
Uns usam da tecnologia para reler sua própria atividade, pesquisar influencias, mandá-la para o espaço, deletar conceitos, aglomerar referências. Uns usam a própria para realizar suas obras. Outros inserem-na nos seus fazeres.
O que chamo de tecnologia aqui, já deves ter percebido, é tudo referente ao se consegue dos computadores domésticos, dos nets aos notebooks, celulares aos smartphones, dos hardwares com os mais desenvolvidos softwares combinados aos simples micros domésticos. 
Não creio que deixem de ser sensíveis por isso, pelo contrário, são sensíveis a isso. Usam isso para sensibilizar e multiplicar a exposição, ampliar platéias, formar espectadores.
Não fossem sensíveis, talvez não fossem artistas. Mais, sensibilizam com isso, abrem vias de sensibilidade em quem os consome. Ativam qualquer centelha de emoção pura.
Porém, mais uma vez, a arte dá passos para ser questionada enquanto função, enquanto essência, enquanto conceito. Rompe diariamente limites, que são, por sua vez, também diariamente dilatados. É possível que nem haja mais o que romper, parece que a arte deixou de ter uma referência coletiva comum de enquadramento, para o tocante ao gueto, o que atinge a um grupo, o que serve a uma comunidade.Será preciso, então encontrar um foco de unidade na pluralidade da arte contemporânea, visto que ela está na dilatação da sensibilidade do receptor, na qualidade do sentimento que proporciona?
Por isso, pode-se dizer, que a industria se apropria cada vez mais dos artistas e suas maneiras diferenciadas de percepção do mundo, para tocar esse ou aquele público consumidor. De roupas a embalagens de alimento, do liquidificador ao automóvel, tudo tem dedo do artista.

Quem expôs o tema de hoje foi o Devison, quem comentou foi o Felippe.
Acho que foi um debate importante sobre o que caracteriza a obra de arte. Não respondeu nada, mas isso é o que faz pensar.
Bem..não houve trabalho na segunda parte do encontro. Aquele momento de atividades práticas, quase sempre com desdobramentos, que estamos chamando em sala de Eu-Mundo. Os rodoviários urbanos estavam em greve e para que todos não ficassem na rua tarde da noite, fomos liberados.

Lugar Nenhum (8º Encontro - Trajetórias do Ser)

Não consigo ficar sem literatura, aquela leitura que não é didática ou técnica. Mesmo com trocentoseqüenta textos/capítulos para ler em função da graduação em Licenciatura em Teatro, dos emails das redes de discussão em torno da política pública para teatro, de projetos e prestações de contas a produzir para o In Bust. Mesmo assim, estou lendo tudo do Neil Gaiman que tem em casa  - que tem sido muito importante para as aulas sobre a origem do imaginário, da disciplina de Etnodramaturgia do mito e da poesia, ministradas pelo João de Jesus Paes Loureiro - e exatamente o livro que está na minha cabeceira do imaginário, em fase de devoramento, chama Lugar Nenhum. Um lugar qualquer, em qualquer lugar e tempo, onde o que ocorre é o que importa e tudo tem relação com o lugar e com o momento.

Mas Lugar aqui, no texto Espaço e Lugar - O Lugar da Arte, é usado para designar um espaço físico, um local de convivência ou de acessibilidade, com limites evidentes, como paredes, portas, calçadas, onde algum fato de relacionamento pessoal, porém físico, acontece, como um encontro, uma luta corporal, um jogo, um show de música. E Espaço é determinado pelo fato ocorrido, pela predisposição do lugar, sem necessáriamente ter limites físicos, mais extensivos à sua utilização e visualidade. Exemplo besta: o campo de futebol dos meninos na rua é um espaço no meio do asfalto.
Leva, então, para a arte. A arte tem lugar? ou a arte determina o seu lugar? ou o lugar determina a arte? Quem faz teatro fora do teatro, transforma o lugar e é transformado por ele. Converte-o em teatro. Assim com a galeria ou a arte posta na esquina, na calçada. Uma ação, realizada por uma ou mais pessoas, com ou sem textos ou diálogos, fora de seu lugar devido pode ser considerada um acontecimento teatral? Ou uma ação corriqueira, como beber água, realizada em um palco de um edifícil teatral, pode ser considerada uma cena? Uma bacia de farinha com colheres dentro, posta em uma galeria pode ser considerada uma obra de arte? 
Bem...questões que talvez ficarão para a contemporaneidade artística não responder. Quem responde? Talvez o espectador, consumidor, usuário (ou não) de artes.
Fica uma resposta de Cláudia Paim, que encontrei na net: "A arte hoje não precisa de um lugar próprio, qualquer espaço pode ser um local para ela, mesmo porque a arte acontece por meio das relações artísticas que o artista estabelece, e isso pode ser em qualquer lugar".

Estava em circulação por municípios do Estado com o espetáculo Catolé e Caraminguás, com o In Bust. Acabamos chegando tarde de Marabá, depois de um roubo do material de cena da Van de madrugada, pois precisamos ficar algumas horas à disposição do tempo e da inoperancia do funcionalismo público (que ao final não nos atendeu porque não chegou, o Delegado) na manhã deste dia. Todo o cronometrado se perdeu. Perdi, então, esse encontro.